11 outubro 2009

O nome de Casmurro

Continua aqui a infame série Memórias Pré-Póstumas de Casmurro, que trata de trechos da tão esperada biografia deste mestre da insignificância, Casmurro Sobrinho, a qual só não foi lançada ainda por medo de que possa causar a terceira guerra mundial, epidemia global de mau-hálito e falta generalizada de papel higiênico extra-soft perfumado, não necessariamente ao mesmo tempo. Como visto anteriormente, não haverá ordem cronológica ou alfabética - aliás, não haverá ordem alguma, nem bom senso ou bom gosto. Se quiserem seguir, é por vossa conta e risco. Está dado novamente o aviso.
Decerto vocês, incautos que seguem este blog por algum traço obscuro de masoquismo que trazem dentro de si, já se perguntaram mais de uma vez: caramba, se este caboclo é Russo, por que diabos se chama Casmurro, e não Boris, Oleg, Ivan, Dimitri, Yuri ou algo do tipo?
Bem, senhores e senhoras, tenho uma revelação a fazer: não me chamo verdadeiramente Casmurro. Este é meu codinome - apelido, por assim dizer. Meu nome é russo, com todas as consoantes que possa ter – e aí é que está a raiz de todo o problema. Esta é uma longa história – vamos tentar resumi-la.
Tudo começa no meu nascimento. Nasci, como toda criança russa, em uma manjedoura, entre pequenos animaizinhos (ratos, baratas, percevejos, besouros e lagartas). Meu nascimento foi marcado por um sinal no céu (na verdade, um sinalizador naval que meu pai, bêbado, disparou), o qual por sua vez atraiu três reis magros (magros mesmo, os coitadinhos eram desnutridos de dar dó).


O primeiro trouxe incenso: como aqui não é a Índia e o troço fedia prá danar, deram um couro nele e o puseram para correr.


O segundo trouxe mirra: como ninguém soubesse que catzo era aquilo e para que servia, deram um couro nele e o puseram para correr.


O terceiro trouxe ouro: como todos sabiam o que era aquilo e para que servia, roubaram o coitado, deram um couro nele e o puseram para correr.

Feliz que só ele pelo nascimento do primogênito, meu pai tomou outro porre de vodka Chernobyl – a legítima, produzida a partir da fermentação do lixo nuclear – e resolveu liberar sua criatividade. Decidiu que meu nome seria o mais russo de todos. Que conteria todas – eu digo todas – as consoantes do alfabeto. Isso apenas no primeiro nome. E não só elas – isso era para qualquer um. Especialmente para mim, inventou mais dez consoantes: o tauta, o brilka, o venta, o drakba, o lapzi, o tilto, o gjerlu, o numbko, o crasca e o kutno. E subornou o tabelião para colocar todas elas também no prenome, no nome do meio e no sobrenome, de tal modo que minha certidão de nascimento tem quatro páginas – uma para os nomes dos pais e demais informações e as outras três para o meu nome completo.
Quando ele chegou em casa, todo pimpão, todos perguntaram qual o nome com o qual ele havia me registrado. Ele então encheu o peito e falou o meu nome completo. Ou, pelo menos, tentou, pois na metade do sobrenome caiu desmaiado por falta de ar (até hoje, ninguém conseguiu pronunciar meu nome completo em uma só respiração - existe até uma competição anual nos Urais. Sete infelizes já morreram tentando). Minha mãe desmaiou de desgosto, e eu, na pequenez da minha infância inocente, fiquei paralisado:

Quem sou eu? Qual é meu nome mesmo?

Depois disso, meu pai foi expulso de casa – sumiu no mundo e nunca mais foi visto. Fui ficando cada vez mais taciturno, ensimesmado, escondido nos cantos, aborrecido – casmurro, enfim. O sobrinho veio porque acharam meu comportamento parecido com meu tio Locóv (que era maluco de pedra e se matou prendendo a respiração –não me perguntem como ele fez isso) - falavam “lá vai o casmurro sobrinho do Locóv”.
Basicamente, isso durou toda a minha infância – só parou quando, aos dez anos, eu descobri a vodka e as mulheres, e deixei de casmurrices. Mas o apelido ficou, e tem me servido bem por todos esses anos.
Ah, vocês querem que eu escreva meu nome verdadeiro? Pois não.

Pode ler de cima para baixo, de baixo para cima, da esquerda para a direita ou vice e versa – tanto faz.